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Cão Fila Km 26

Posted 01/04/2011 by Maurício Morgado in Uncategorized.

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Muita gente deve se lembrar da pichação “Cão Fila Km 26″, tão presente nos anos 70. Fez parte de minha infância e adolescência. Tinha uma dessas perto da minha casa e lembro que sempre me perguntava: “Km 26 de que estrada? Como é que as pessoas chegarão lá?” Era um desses mistérios da vida que a gente não encontra resposta quando é criança, “de menor”, quando se falava na época. 

Um outro mistério que me aporrinhava era a frasezinha que eu lia, escrita em letrinhas brancas nos rótulos das garrafas de Crush, Coca-Cola e outros refrigerantes: MARCA DE FANTASIA.  Eu olhava aquilo e pensava: “Já sei! Deve ser falha de impressão – o certo só pode ser MARCA DE FANTA S/A, claro!” E essa explicação me bastou por um bom tempo. Não é incrível?

O enigma da MARCA DE FANTASIA eu resolvi sozinho, mas a pichação do Cão Fila Km 26 me perseguiu até um dia desses. Numa de suas recentes fantasmagóricas aparições na minha mente, resolvi procurar na Internet. Quem sabe conseguiria acabar com quase quatro décadas de mistério… E não é que São Google me fez chegar a uma reportagem da Veja, de 6 de julho de 1977  e o mistério se desfez!?! O tal quilômetro 26 era da Estrada do Alvarenga, no município de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De novo o São Google me ajudou a descobrir que a tal estrada existe (pelo menos no Google Maps).

A íntegra da reportagem está abaixo e a imagem da página da revista vem logo depois. Mistério desfeito!

Cão Fila Km 26

Veja 6 de julho de 1977

Muros, pontes, viadutos, postes, mourões, pedras, barrancos — praticamente não há superfície sólida no país a salvo da rústica, enigmática inscrição “Cão fila km 26″. De São Paulo, alastrou-se por outros Estados e, hoje, aparece até na região portuária de Manaus. “O cão de fila vai ficar conhecido como bana­na”, sentencia Antenor Lara Campos, o “Tozinho”, de tradicional e abastada família paulista. Em seu modesto e caótico escritório, numa ilhota particular da poluída represa Billings, à altura do quilômetro 26 da Estrada do Alvarenga, no município de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, alfinetes de cabeça colorida assinalam em mapas pregados nas paredes a expansão nacional das inscrições. “Estudei táticas de guerra em livros e revistas”, explica ele. “É preciso atacar pelos flancos para fechar o cerco.” Talvez, por isso mesmo, Tozinho se viu sitiado algumas vezes pela suspeita das autoridades. Em longas e lentas sortidas, numa camioneta carregada de latas de tinta, o excêntrico propagandista, que se incumbe pessoalmente da pintura, chegou mesmo a ser tomado por agente subversivo. Tanto que, aos ensinamentos tomados às artes marciais, colheu ou­tros, na seara das ciências jurídicas. Aos que o interpelam com suspeitas replica brandindo um inseparável exemplar do Código Penal: “Mostra aqui onde é que ‘eu estou errado”.

Canhões — Cerca de 60% dos que lêem as inscrições, admite Tozinho, não as entendem. “Mas, de uma forma ou de outra, as pessoas acabam chegando aqui.” Isto é, à sua ilhota particular, sede da Associação de Criadores de Fila Brasileiro, por ele mesmo fundada em 1972, e centro de suas atividades cinófilas, onde mantém um canil com 160 animais daquela raça. Ele alega receber cerca de 600 visitantes por mês, daí resultando, em média, a venda de vinte filhotes, a 7 000 cruzeiros por cabeça. Um apreciável resultado para tão primitiva modalidade publicitária, já praticada, em outros tempos, pelas Casas Pernambucanas e Casas Buri. Foi num precedente mais antigo, entretanto, que Tozinho confessa ter-se inspirado. “Na verdade, baseei-me nas campanhas eleitorais de Adhemar de Barros. Até hoje ainda se encontra o nome dele pintado em pontes e lugares semelhantes.” A escolha dos locais, de resto, requer fina sensibilidade mercadológica. O Corcovado e o Pão de Açúcar, por exemplo, encontram-se a salvo das investidas de Tozinho: “Só estrangeiros aparecem nesses lugares”. Os canhões do Forte de Copacabana, contudo, estão em sua mira. Assim que a área for liberada à construção de prédios, ele atacará de tinta, pincel e Código Penal.

A pouco mais de 70 quilômetros de Copacabana, por sinal, em Barra de Gua­ratiba, no Estado do Rio de Janeiro, de­senvolve-se outro florescente negócio desse mesmo ramo — o Consórcio Ma rajó, criado em setembro do ano passa­do, dedicado exclusivamente à comer­cialização de cães de fila. A idéia par­tiu do relações-públicas carioca Arman­do Brando. Inspirado num consórcio que um industrial paulista formou com ami­gos para explorar o cavalo “Falkland”, reprodutor importado da Inglaterra, o loquaz Brando articulou seis amigos seus para, em consórcio, explorarem o repro­dutor “Yandu”, cão de fila brasileiro de boas características, criado por ele em seu sítio de Guaratiba. Hoje, o consór­cio, para o qual cada membro contri­buiu com 5 000 cruzeiros, conta, além de “Yandu”, com mais um reprodutor e três fêmeas. Já foram vendidos oitenta filhotes, à média de 5 000 cruzeiros ca­da, e há 126 cadelas na fila para serem cobertas por “Yandu”, a 10 000 cruzei­ros por tarefa. Resultado de sucessivos cruzamentos entre o mastim inglês, o bloodhound e o buldogue, o fila brasi­leiro, segundo Brando, é vítima ainda de injusta fama de ferocidade. Um dos ob­jetivos do comércio é convencer o pú­blico de que o fila é dócil, bonito e de manutenção barata. Uma mensagem excessivamente prolixa, por certo, para as sintéticas inscrições que seu colega Tozinho pretende pintar até nos canhões do Forte de Copacabana.

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